O coração que Deus transformou em rio

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Chama Forte

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Por Padre Jorge Luiz Neves Pereira da Silva (Padre Jorjão)

Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Paz (Ipanema, Rio de Janeiro)

Missa em memória do Venerável Guido Schäffer

Leituras: Pr 21,1-6.10-13 | Lc 8,19-21

Há poucos dias, em Ibirité, uma pequenina cidade de Minas Gerais, uma menina de treze anos caminhava levando a irmã para a escola quando foi surpreendida por um enxame de abelhas. Em poucos instantes, aquilo que seria uma manhã comum transformou-se em desespero.

A menina tentou fugir. Caiu. As abelhas continuaram sobre ela. Foram mais de cem picadas. Muitas pessoas talvez não soubessem o que fazer. Outras, compreensivelmente, teriam medo de se aproximar.

Mas um motoboy chamado Vinícius passava por ali. Ele poderia ter continuado seu caminho. Não continuou. Parou a motocicleta e entrou no meio do enxame para salvar uma menina que sequer conhecia. Também ele acabou atingido: recebeu dezenas de picadas.

Mais tarde, já hospitalizada e melhorando, a menina disse uma frase de uma simplicidade comovente:

“Deus o enviou para mim.”

Talvez ela tenha dito, sem saber, algo muito profundo sobre a vida cristã. Porque há momentos em que Deus não muda o sofrimento com um milagre vindo do céu: Ele muda o caminho de alguém. Faz alguém parar. Faz alguém escutar. Faz alguém aproximar-se. Faz alguém transformar a própria vida em resposta à dor de outro.

E é exatamente isso que a primeira leitura, tirada do Livro dos Provérbios, nos oferece hoje numa das mais belas imagens da Sagrada Escritura:

“O coração do rei é como um curso d’água nas mãos do Senhor: Ele o dirige para onde quer.”

Um rio… Un rio não existe para si mesmo. Nasce pequeno, quase escondido entre as pedras. Depois desce, procura passagem, contorna obstáculos, atravessa terras. E, por onde passa, deixa alguma coisa de si: irriga, fecunda, refresca, faz nascer vida. E há algo ainda mais belo: o rio não tem medo de perder-se. Sua vocação é justamente esta: correr, entregar-se, prosseguir, até desaparecer no mar.

Quando penso no Venerável Guido Schäffer, cuja memória nos reúne mais uma vez nesta Missa mensal, gosto de imaginar sua vida assim: um coração que Deus transformou em rio.

Guido poderia ter represado a própria existência. Tinha diante de si tantas possibilidades. Era jovem, médico, esportista, cercado de amigos, apaixonado pelo mar e pela beleza da vida. Poderia ter construído para si uma existência confortável, protegida, perfeitamente legítima.

Mas Deus começou, silenciosamente, a cavar um leito dentro de seu coração. E Guido deixou as águas correrem.

  • A medicina tornou-se serviço.
  • O encontro com os pobres tornou-se compaixão.
  • O amor pelo mar tornou-se contemplação.
  • A amizade tornou-se evangelização.
  • A oração tornou-se intimidade.
  • E a intimidade tornou-se vocação.

Até que aquele jovem médico começou a compreender que sua vida não lhe pertencia inteiramente. Era um rio nas mãos de Deus.

E talvez seja justamente aqui que o Evangelho de hoje nos revele algo muito profundo sobre Guido — e sobre nós. São Lucas conta que a Mãe e os parentes de Jesus chegaram para vê-lo, mas havia um obstáculo: “Não podiam aproximar-se por causa da multidão.”

É uma frase pequena, mas que paradoxo imenso existe dentro dela! A multidão estava ali por causa de Jesus e, ao mesmo tempo, a multidão impedia que alguém chegasse a Jesus.

É possível, portanto, estar perto de Cristo e impedir que outro chegue até Ele. É possível pertencer à multidão que escuta Jesus e, entretanto, tornar-se uma barreira entre alguém e Jesus. É possível frequentar a Igreja, conhecer o Evangelho, receber os sacramentos, falar de Deus — e viver de tal maneira que alguém, olhando para nós, encontre mais dificuldade para acreditar n’Ele.

Por isso, talvez uma das perguntas mais sérias que o Evangelho nos faça nesta manhã seja esta: Quando alguém atravessa a minha vida, encontra um caminho ou encontra um muro?

Depois de conviver comigo, alguém sente mais vontade de aproximar-se de Jesus? Minha maneira de olhar? Minha maneira de falar? Minha paciência? Minha misericórdia? Minha capacidade de perdoar? Minha maneira de tratar os pobres e os pequenos?

Porque não basta estar perto de Jesus. É preciso que, através de nós, alguém consiga chegar até Ele.

E talvez aí esteja uma das marcas mais bonitas da vida de Guido. Quem se aproximava dele não encontrava, primeiramente, um discurso religioso. Encontrava um jovem, um amigo, um médico, um homem que gostava do mar, do esporte, das conversas, da amizade, da beleza da vida. Mas, pouco a pouco, quem se aproximava daquele jovem percebia que havia nele uma nascente escondida. Havia Alguém dentro dele. Cristo transparecia.

Guido realizou uma das formas mais belas da santidade: não ocupar o lugar de Jesus, mas abrir espaço para que alguém encontrasse Jesus.

Então dizem ao Senhor: “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem ver-te.” E Jesus responde com uma frase que, à primeira vista, poderia parecer dura: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática.”

Jesus não está diminuindo Maria. Ao contrário. Sem sequer pronunciar seu nome, talvez esteja fazendo o maior elogio que poderia fazer à sua Mãe. Porque quem, mais do que Maria, escutou a Palavra? Quem, mais do que Maria, permitiu que a Palavra alterasse os projetos de sua vida? Quem, mais do que Maria, transformou a Palavra escutada em vida vivida?

Antes de conceber Jesus em seu ventre, Maria já O havia acolhido no coração. Seu “Faça-se em mim segundo a tua palavra” é a mais perfeita definição do discípulo que Jesus descreve hoje.

E aqui o Evangelho toca diretamente a vida de Guido. Porque santidade não é escutar coisas bonitas sobre Deus; santidade é permitir que aquilo que escutamos comece a acontecer em nós. É quando a Palavra desce dos ouvidos ao coração, e do coração chega às mãos. Entra nos olhos, nas escolhas, na profissão, nas amizades, no dinheiro, no tempo, nos sonhos… até entrar nos projetos que havíamos feito para a nossa própria vida.

Guido escutou a Palavra, mas não a guardou como se guarda uma lembrança bonita. Deixou que ela lhe mudasse o caminho:

  • Quando encontrou Cristo nos pobres, aproximou-se deles.
  • Quando percebeu que podia evangelizar os jovens, falou-lhes de Jesus.
  • Quando compreendeu que a medicina podia tornar-se instrumento da misericórdia de Deus, cuidou.
  • Quando sentiu que Deus o chamava mais longe, deixou-se chamar.
  • E quando começou a perceber o chamado ao sacerdócio, teve a coragem de entregar a Deus os mapas que havia desenhado para sua existência. E Deus começou a redesenhá-los.

“O coração do rei é como um curso d’água nas mãos do Senhor: Ele o dirige para onde quer.” Talvez seja esta uma das mais belas definições da vocação: deixar Deus mudar o curso do nosso rio.

Nós fazemos projetos; Deus abre caminhos. Nós desenhamos mapas; Deus inventa estradas. Nós imaginamos onde chegaremos; Deus, às vezes, muda a direção das águas. Nós queremos controlar; Deus pede confiança.

E talvez a santidade comece precisamente no dia em que deixamos de perguntar apenas: “Senhor, o que eu quero fazer da minha vida?” e temos a coragem de perguntar: “Senhor, o que queres fazer com a minha vida?”

Guido fez essa passagem. E talvez seja por isso que sua existência, embora tão breve, continue produzindo frutos. Porque existem vidas muito longas que atravessam o mundo sem irrigar quase nada; e existem vidas breves que se tornam rios.

Guido viveu apenas 34 anos. Mas Deus não mede uma vida apenas pelo número de seus dias. Talvez a medida mais verdadeira de uma existência seja quanto amor conseguimos fazer passar através dela.

E então compreendemos por que a primeira leitura termina hoje com uma advertência tão forte: “Quem fecha os ouvidos ao clamor do pobre também há de clamar, mas não será ouvido.”

Guido não fechou os ouvidos. Escutou os pobres, os doentes, os jovens, os amigos, a Palavra… E, no meio de tantas vozes, soube escutar Deus.

Talvez seja por isso que, tantos anos depois de sua partida, continuemos falando dele. Não porque Guido tenha procurado deixar um nome, mas porque deixou Deus passar. E quando Deus consegue passar através de uma vida, aquela vida deixa de ser apenas uma biografia: torna-se caminho, torna-se ponte, torna-se nascente, torna-se rio.

Em pouco tempo, neste altar, acontecerá novamente o mistério que sustentou a vida de Guido: Cristo se dará a nós. E talvez devêssemos nos aproximar da Eucaristia trazendo no coração apenas esta oração:

Senhor, faze de minha vida um rio.

Não permitas que eu seja represa de tua graça.

Não permitas que minha fé se transforme em privilégio, distância ou barreira.

Que ninguém deixe de Te encontrar por minha causa.

Que minha presença abra caminhos.

Que minhas palavras consolem.

Que meus olhos percebam quem sofre.

Que meus ouvidos escutem quem clama.

Que minhas mãos sirvam.

E que minha vida conduza alguém até Ti.

Foi assim Maria. Foi assim Guido. E é assim que começa toda santidade: quando colocamos o coração nas mãos de Deus e permitimos que Ele escolha para onde devem correr as águas.

Até que, depois de todos os caminhos, de todas as curvas, de todas as pedras, de todas as quedas, o pequeno rio de nossa existência chegue finalmente ao seu destino. E então compreendamos que ele passou a vida inteira procurando aquilo para o qual havia sido criado: o mar.

E que nós também passamos a vida inteira procurando Aquele de quem viemos e para quem voltamos. Até que, um dia, já não haja margens, já não haja distância, já não haja caminho a percorrer… E o pequeno rio de nossa vida possa finalmente perder-se, para sempre, no infinito mar de Deus.

Padre Deusimar Andrade (à esquerda) e Padre Jorjão (à direita).