A Pressa da Vocação e a Esperança

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Padre Deusimar

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Em dado momento da nossa vida, por uma intervenção extraordinária da Graça, os apelos do Senhor tornaram-se maiores do que poderíamos ignorar e nós tivemos então o nosso primeiro encontro com o Senhor. Toda história de caminhada com Deus tem esse mesmo início misterioso, em que o Altíssimo intervém em nossa vida, sem nossa participação, e Ele nos abre então novos horizontes (Deus Caritas Est, 1). 

Contudo, nossa caminhada não termina nessa primeira conversão, mas a esta se sucedem inúmeras pequenas conversões que nos vão aperfeiçoando em santidade até que nos seja dado o dom da perseverança final.  Esse pelo menos é o itinerário da maioria de nós, existindo exceções como São Paulo, que se converteu e perseverou num único movimento, ou São Dimas, o bom ladrão, que no derradeiro momento foi salvo pela Misericórdia extrema de Deus1. Usualmente, nossa caminhada se estende entre a conversão e a perseverança final, e a cada momento dela, há cuidados e desafios próprios, que diferem do momento anterior e serão outros no próximo instante.

 Um dos momentos mais importantes, do qual depende grandemente nossa santidade e, consequentemente, nossa felicidade, é o discernimento da Vocação a qual somos chamados. estamos falando aqui em  Vocação não como a vocação universal à santidade, que proclama o Concílio Vaticano II, mas a Vocação pessoal que perpassa o discernimento do nosso estado de vida e do nosso carisma específico. Esse momento de discernimento é permeado de dúvidas e, por vezes, de inseguranças e de medo, pois somos chamados a tomar decisões definitivas. Casar ou não casar? Minha vocação é leiga ou religiosa? Que pensarão se decido guardar minha virgindade e tornar-me celibatário consagrado? É um momento delicado, onde precisamos ouvir a Voz de Deus. Por vezes, esse discernimento leva meses ou mesmo anos. 

O tempo que se leva para tal discernimento não é, em si, importante, pois vivemos no tempo da graça, o Kairós de Deus, que não está ligado aos minutos e segundos passados, mas sim ao viver na graça e na vontade do Senhor. Todavia, esse discernimento tem que ser feito com caráter de urgência, pois para amar a Deus só temos o hoje. Agora, enquanto se lê esse texto, é o único momento que podemos amar a Deus. Ontem já é tarde, já não existe mais. Amanhã ainda não é, e nem sabemos se nos será dado ser. Somente o hoje e a eternidade têm existência real, um porque o temos em nossas mãos, outro porque está fora do tempo, e nele repousa nossa esperança2. Por isso precisamos ter pressa para amar a Deus. É preciso amar hoje! É a virtude da esperança que nos impulsiona para essa santa pressa; por causa daeternidade, nos apressamos em amar hoje.

E para isso é mister discernimos nossa vocação, para que possamos permanecer no Senhor e para que nossa alegria seja completa (cf. Jo 15, 10-11). Alcançar a vocação e vivenciá-la é nos aproximarmos do nosso eu-ideal, o nosso verdadeiro eu, é viver a vida que Deus quer para nós;  é,  em última instância, amar a Deus. Portanto, só temos o hoje para ter pressa da vocação,  ansiar por discerni-la e por vivê-la, para melhor amar a Deus e aos irmãos. É certo que essa pressa não significa precipitação, não é uma carta branca para decidir em base no ‘eu acho’, mas é ela que nos move a estar em intimidade com o Senhor para ouvir o que ele quer de nós (cf. 1Sm 3, 10). Há que reinar em nós uma “paz de alerta”, que sabe esperar o tempo do Senhor e, ao mesmo tempo, está pronta para quando for preciso decidir.

O grande risco está em esperar desavisadamente, como as noivas imprudentes, que não levando óleo extra para suas lamparinas, perderam a visita do noivo e restaram ao lado de fora (cf. Mt 25, 1-13). Não podemos correr o risco de estarmos despreparados quando o Senhor vier hoje nos visitar. Não podemos fazer o papel das noivas tolas, devemos sim sermos as noivas prudentes, que entraram nas bodas junto ao noivo. 

Podemos cair nesse erro porque, no início de nossa caminhada, Deus agiu na nossa vida sem depender de nós. Mesmo que nós o procurássemos, Ele veio até nós por primeiro e nos mostrou Seu Amor. Então pensamos que Deus haverá de agir dessa maneira sempre, que não nos cabe nos movimentar, numa espécie de acomodação dormente. Que erro infeliz, se nos deixamos levar por ele por muito tempo! 

Em todo momento de nossa caminhada, o Senhor nos socorre com seus favores, mas passado o primeiro instante, é preciso de nossa parte uma resposta e uma procura incessante. Assim age o Senhor, do primeiro chamado até a vida na glória: seu primeiro favor é o chamado, e até aqui não há ação de nossa parte, ele nos é apresentado e podemos recusá-lo ou aceitá-lo; aos que obedecem ao chamado, e aí já agimos, Deus fornece os movimentos de penitência, em que nos arrependemos do antigo pecado e queremos dele sair; aos que alcançam um coração contrito, o Senhor dispõe a santa caridade; aos que cultivarem a virtude da caridade, Deus dá o socorro necessário para perseverar; e os que empregam esse socorro, ganham o dom da perseverança final e a gloriosa felicidade do Amor eterno3.

O momento exato que comentamos aqui é o que, após termos um coração contrito, recebemos a caridade e temos que cultivá-la. Pois o discernimento da nossa vocação específica, nao é nada mais, nada menos, que multiplicamos nossos talentos (cf. Mt 25, 14-30). Nosso estado de vida e nosso carisma específico nada mais são do que os dons que Deus nos confia para podermos amar de modo mais efetivo, para darmos frutos e frutos em abundância. 

Por isso é preciso ter pressa da vocação!  O noivo vem e não sabemos quando. É verdade que por vezes Deus nos pede esperas, mas nossa espera deve ser prudente. Disso depende a nossa salvação e a salvação dos outros. Pela eternidade, nós temos que nos apressar hoje para dizer nosso sim. Essa é nossa esperança e salvação. Pois na vida espiritual quem não ganha, perde; que não sobe, desce; e quem não é vencedor, é vencido nesse combate4. 

1- Tratado do Amor de Deus, livro 3, capítulo 4: Da santa perseverança no amor sagrado. São Francisco de Sales.

2- Direção Espiritual: Como progredir na caridade. Padre Paulo Ricardo. (disponível em: https://padrepauloricardo.org/episodios/como-progredir-na-caridade)

3- Tratado do Amor de Deus, livro 3, capítulo 5: Que a graça de morrer na divina caridade é um dom especial de Deus. São Francisco de Sales.

4- Tratado do Amor de Deus, livro 3, capítulo 1: Que o amor sagrado pode ser aumentado de mais em mais em cada um de nós. São Francisco de Sales.