Santos da Nossa Idade | Beata Sandra Sabattini: “És aquele por quem quero dar minha vida”

O que tem nesse artigo?

Picture of Maria Fernanda

Maria Fernanda

⏱️ 7 minutos de leitura

“E vós, quem dizeis que eu sou?”

“És aquele por quem quero dar minha vida. Mas por que isto? Porque sinto que só vivendo contigo, para ti e em ti é minha vida alegre, plena e realizada.”

Do diário da Beata Sandra Sabattini

Perto de Cesareia de Filipe, Jesus fez aos discípulos uma pergunta que atravessou os séculos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15). Quase dois mil anos depois, uma estudante italiana copiou essa pergunta no diário e escreveu, logo abaixo, a sua resposta.

1. A pergunta que ninguém pode responder por você

Antes de fazer a pergunta decisiva, Jesus quis saber o que as pessoas diziam dele. Os discípulos tinham as respostas na ponta da língua: uns diziam João Batista, outros Elias, outros Jeremias ou algum dos profetas (cf. Mt 16,13-14). Mas Jesus não se contenta com a opinião dos outros e insiste: “E vós?”. Foi então que Pedro respondeu por si: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).

Sandra Sabattini conhecia bem as respostas dos outros. Nasceu em Riccione, na Itália, em 1961, e cresceu na casa paroquial do tio padre, em Rimini, cercada de fé por todos os lados. Seria fácil viver de uma fé emprestada: a do tio, a dos pais, a da paróquia.

Mas o diário, que ela começou a escrever aos 10 anos, mostra outra coisa. Ainda menina, anotou que uma vida sem Deus não passa de um passatempo, chato ou divertido, enquanto a morte não chega. Aos 14, confessou que tinha tudo o que queria e, mesmo assim, toda noite encontrava um vazio dentro de si.

É no meio desse vazio que a pergunta de Jesus chega. Ele não pergunta em que a sua família acredita, o que o seu grupo diz ou o que você já ouviu falar dele. Pergunta o que você diz. Discernir a vocação começa exatamente aqui: parar de repetir uma fé que ouvimos e responder, em primeira pessoa, quem Jesus é para nós.

Vale a pena levar essa pergunta a sério, sem pressa. Se alguém te perguntasse hoje quem é Jesus para você, o que você responderia? E o que responderiam as suas escolhas, o seu tempo, a sua agenda desta semana?

2. Uma escolha com um porquê

A resposta de Sandra não é uma definição de catecismo. É uma decisão: “És aquele por quem quero dar minha vida”. E essa decisão foi ganhando forma na vida concreta.

Aos 12 anos, ela conheceu o padre Oreste Benzi e a Comunidade Papa João XXIII. Dois anos depois, passou uns dias nas montanhas das Dolomitas cuidando de pessoas com deficiências graves e voltou para casa exausta e decidida: nunca abandonaria aquela gente. Daí em diante, serviu pessoas com deficiência, ia procurar os pobres de casa em casa e passava as férias de verão morando com jovens dependentes químicos em comunidades terapêuticas.

Mas Sandra sabia que não estava escolhendo uma causa. Ela escreveu que dizer “escolho os pobres” era fácil demais, e completou: “escolho a ti, e pronto”. O centro da vida dela não era um projeto. Era uma Pessoa.

Logo depois de responder a Jesus, Sandra se pergunta: “Mas por que isto?”. Ela não tem medo de examinar a própria escolha, e o motivo que encontra não é medo nem obrigação. É alegria: só com Jesus a vida dela fica “alegre, plena e realizada”, a vida em abundância que Ele prometeu (cf. Jo 10,10).

E por trás dessa alegria existe algo que vem antes de qualquer escolha nossa: “Ele nos amou primeiro” (1Jo 4,19). A gente só consegue dar a vida inteira quando descobre que já foi amado por inteiro.

Nem por isso Sandra tinha tudo resolvido. Perto de terminar a escola, escreveu que sentia a necessidade de uma escolha radical, mas não sabia como fazê-la, nem mesmo se devia entrar na universidade, e pedia ao Senhor que lhe mostrasse a escolha concreta. Em 1980, entrou em Medicina, em Bolonha, sonhando ser médica missionária na África.

Desde 1979, estava com Guido Rossi, também da Comunidade, e os dois viviam um amor terno e casto, à luz da Palavra de Deus; quando ela morreu, eram noivos. O amor por Jesus não competia com o amor por Guido: era a raiz dele. Padres, consagrados, casais e leigos dão a vida de jeitos diferentes, mas todos respondem à mesma pergunta.

E essa pergunta não exige que você já tenha tudo claro. Exige que você esteja disposto a deixar Jesus mostrar o caminho, um passo de cada vez.

3. Contigo, para ti, em ti

Sandra também sabia que o entusiasmo do começo passa. Escreveu que sentia uma grande alegria em seguir esse caminho, mas que, quando o primeiro impulso fosse embora, a corrida seria dura. Por isso, dizia, a oração era necessária: só uma fé verdadeira a levaria até o fim daquilo a que Deus a tinha chamado. As três palavras do diário mostram como ela viveu isso.

Contigo. Sandra rezava o terço todos os dias, meditava a Palavra de Deus e passava a primeira hora de cada ano novo em adoração diante do Santíssimo. Quando o tio ia abrir a igreja, às vezes a encontrava deitada no chão diante do Sacrário. Ninguém aprofunda uma amizade sem tempo junto, e com Jesus não é diferente.

Para ti. O tempo com Jesus não a afastava das pessoas; levava até elas. Sobre os jovens dependentes químicos com quem morava no verão, escreveu que era neles que encontrava Jesus. E não aceitava uma fé confortável: deixou anotado que, enquanto parte da humanidade passa fome, não bastava ser uma boa cristã, porque hoje há uma inflação de bons cristãos, quando o mundo precisa de santos.

Em ti. No fim, tudo se torna uma coisa só: uma vida tão unida a Jesus que já não dá para separar a oração do serviço, o estudo do amor, o namoro da fé. É o que São Paulo dizia: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

No dia 27 de abril de 1984, Sandra escreveu no diário que aquela vida não era dela: era um presente, e ela precisava cuidar dele para torná-lo mais bonito e pleno até a hora de entregá-lo. Dois dias depois, a caminho de um encontro da Comunidade, foi atropelada ao descer do carro. Morreu em 2 de maio, aos 22 anos.

Foi beatificada em 24 de outubro de 2021, a primeira noiva declarada beata na história da Igreja, e sua memória é celebrada em 4 de maio. Sandra não esperou ficar mais velha para levar Jesus a sério.

Não é por acaso que ela rezava o terço todos os dias. Antes dela, outra jovem, em Nazaré, recebeu um chamado de Deus e respondeu com a vida inteira: “Eis a serva do Senhor” (Lc 1,38). A pergunta de Cesareia continua de pé, e agora é para você.

Fontes