Hoje a Igreja celebra São João Paulo II. E a data já conta uma história: a memória de um santo costuma cair no dia da sua morte, mas a dele é 22 de outubro, o dia em que ele começou o seu pontificado. Como se a Igreja quisesse lembrar, todos os anos, não o fim, mas o começo de uma missão.
Para entender quem ele foi e o que deixou para nós, basta acompanhar duas frases, ditas com vinte e dois anos de distância. A primeira foi dirigida ao mundo inteiro. A segunda, aos jovens. Entre uma e outra está o caminho de toda fé e de toda vocação.
1978: abrir as portas
22 de outubro de 1978, Praça de São Pedro. Pela primeira vez em mais de quatro séculos, o Papa não era italiano. Karol Wojtyła tinha 58 anos e vinha da Polônia, um país que tinha atravessado a ocupação nazista e vivia sob um regime comunista que tentava apagar Deus da vida pública. Ele conhecia de perto o medo: o medo da guerra, da perseguição, do futuro.
Naquela manhã, ele recusou a tiara, a antiga coroa papal, dizendo que o poder de Cristo não fala a linguagem da força, mas a da verdade e da caridade. E começou a homilia não com um programa de governo, mas repetindo a confissão de Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16). Foi a partir dessa fé que veio o pedido que marcaria todo o seu pontificado:
“Não, não tenhais medo! Antes, procurai abrir, melhor, escancarar as portas a Cristo!” (Homilia no início do pontificado, 22/10/1978)
O pedido era amplo. Ele pediu que se abrissem a Cristo não só os corações, mas também as fronteiras dos países, os sistemas econômicos e políticos, a cultura e o progresso. Em seguida, explicou por quê: o homem de hoje muitas vezes não sabe o que carrega dentro de si, vive incerto sobre o sentido da vida e vê a dúvida virar desespero. Só Cristo sabe o que há no coração do homem (cf. Jo 2,25), e só Ele tem palavras de vida eterna (cf. Jo 6,68).
Por que não ter medo de abrir?
Muita gente tem medo de abrir a porta a Cristo porque acha que vai perder alguma coisa: a liberdade, os sonhos, o jeito de ser. João Paulo II respondeu a esse medo logo nas primeiras semanas do pontificado, ao afirmar que Jesus Cristo “não é um estranho nem um concorrente” (Discurso à Comissão Justiça e Paz, 11/11/1978). Ele não disputa espaço com nada do que é verdadeiramente humano.
Por trás dessa certeza estava o texto do Concílio Vaticano II que ele mais retomou ao longo da vida, desde a sua primeira encíclica, Redemptor Hominis (1979). A Gaudium et Spes ensina que Cristo, ao revelar o Pai e o seu amor, “revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime” (GS 22). Abrir a porta a Cristo, portanto, não é perder-se. É finalmente descobrir quem se é.
No Angelus daquele mesmo domingo, o novo Papa fez questão de dirigir uma saudação especial aos jovens. Anos depois, recordaria que lhes disse: “vós sois a esperança da Igreja, vós sois a minha esperança” (Angelus, 12/10/2003). Começava ali um diálogo que atravessaria todo o pontificado.
Entre uma frase e outra: vinte e dois anos
O “não tenhais medo” não ficou no discurso. Nos anos seguintes, João Paulo II teve de vivê-lo na própria carne.
Em 13 de maio de 1981, dia de Nossa Senhora de Fátima, foi baleado na Praça de São Pedro e esteve perto da morte. Perdoou o seu agressor ainda no hospital e, em 27 de dezembro de 1983, foi visitá-lo na prisão de Rebibbia, em Roma. Quem abriu as portas a Cristo descobriu que também precisava abri-las ao perdão.
Foi nesses mesmos anos que nasceram as Jornadas Mundiais da Juventude. O Papa queria encontrar os jovens onde eles estavam e caminhar com eles, de continente em continente. E, aos poucos, o homem que esquiava nas montanhas e percorria o mundo começou a ser marcado pela doença. Quando chegou o ano 2000, ele já não era o Papa vigoroso de 1978. Era um homem frágil, que tinha aprendido a entregar a Deus até a própria força.
2000: entregar a vida
Noite de 19 de agosto de 2000, Tor Vergata, nos arredores de Roma. Vigília da XV Jornada Mundial da Juventude, no coração do Grande Jubileu. O Papa volta exatamente ao mesmo Evangelho de 1978, mas agora como pergunta: “Vós, quem dizeis que Eu sou?” (Mt 16,15).
A partir dessa cena, ele descreve a fé como uma espécie de laboratório onde Deus e o homem se encontram, em três movimentos: Deus se revela, Deus faz um chamado, e o homem responde livremente, com uma resposta que passa a dar forma a toda a sua vida. Lembra também Tomé, que só disse “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28) depois de encontrar o Ressuscitado. A fé cristã, explica o Papa, não é adesão a uma ideia, mas o encontro com uma Pessoa, que se torna Senhor da minha existência concreta.
Ele fala com uma honestidade desarmante. Pergunta se é difícil acreditar no ano 2000 e responde que sim, é difícil, mas que com a graça é possível. Fala dos namorados que lutam para viver a pureza, dos casais jovens que sustentam a fidelidade, dos consagrados que se esforçam para perseverar, de quem trabalha pela paz e pela vida. Talvez não seja pedido o martírio de sangue, diz ele, mas a fidelidade a Cristo no dia a dia é certamente pedida.
E então mostra onde Deus já está agindo no coração de cada jovem: é Jesus que eles procuram quando sonham com a felicidade; é Ele quem os espera quando nada do que encontram os satisfaz; é Ele quem desperta o desejo de fazer da vida algo grande e a recusa de se acomodar na mediocridade. Lembra que ninguém trava essa luta sozinho e chama aquela multidão de sentinelas da manhã (cf. Is 21,11-12), os que vigiam na noite e anunciam que o dia vai nascer.
No fim, o convite de 1978 volta, agora dirigido à liberdade de cada um:
“Não tenhais medo de vos entregar a Ele” (Vigília de oração em Tor Vergata, 19/08/2000)
E garante: Cristo os guiaria e lhes daria força para segui-Lo, todos os dias e em qualquer situação. No dia seguinte, na Missa de encerramento, disse aos jovens que, se fossem aquilo que deviam ser, poriam fogo no mundo inteiro.
Do abrir ao entregar: o caminho de toda vocação
Repare na diferença entre as duas frases. Em 1978, o pedido era abrir as portas. Em 2000, era se entregar. Não são dois convites diferentes, mas dois passos do mesmo caminho.
Abrir é acolher: deixar que Cristo entre na nossa vida do jeito que ela está, com as nossas perguntas, dúvidas e feridas. Entregar-se é o passo seguinte: deixar que Ele conduza. O primeiro passo vence o medo de Deus; o segundo vence o medo de perder a si mesmo. E só o amor vence esse segundo medo, porque, como ensina São João, o amor perfeito lança fora o medo (cf. 1Jo 4,18).
João Paulo II gostava de lembrar outro ensinamento da Gaudium et Spes: o homem só se encontra plenamente no dom sincero de si mesmo (cf. GS 24). A liberdade não se realiza guardando a vida, mas oferecendo-a. Por isso, para ele, toda vocação tem a mesma raiz. O matrimônio, o sacerdócio e a vida consagrada são formas diferentes do mesmo chamado: fazer da própria vida um dom, à imagem de Cristo, que “amou-me e entregou-se por mim” (Gl 2,20).
Para quem está discernindo, isso muda a ordem das perguntas. Antes de “o que eu vou ser?”, vem “a quem eu vou entregar a minha vida?”. A vocação não é um projeto que eu construo sozinho, mas a resposta a Alguém que chamou primeiro.
E você, em que passo está?
Talvez você ainda esteja na porta, com perguntas e com medo de abrir. Talvez já tenha aberto e agora sinta o chamado a se entregar. Talvez esteja no meio do caminho, como Tomé, querendo crer, mas precisando de um encontro.
Em qualquer um desses lugares, o convite de São João Paulo II continua o mesmo, hoje dirigido a você: não tenha medo. Quem abre as portas a Cristo descobre quem é. Quem se entrega a Ele não se perde. Se encontra.