Novos corações serão criados: matrimônio e celibato apostólico

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Chama Forte

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Como amar a Cristo, uma pessoa viva a quem não vemos? E como amar os outros como Ele nos amou? Seja no matrimônio ou no celibato, é o Espírito Santo quem transforma os nossos sentidos para tornar o nosso coração cada vez mais semelhante ao d’Ele.

Amar de um modo novo

Já parou para pensar nas pessoas que caminharam com Jesus durante a sua passagem pela terra? Teriam elas imaginado que, em algum momento, teriam que continuar a vida sem Ele? Ao vê-lo morrer na Cruz, como imaginaram os anos que ainda teriam pela frente?

Imagino que a separação tenha sido dolorosa — nunca é fácil dizer adeus a quem se ama. Verônica procurou guardar as feições de Cristo no tecido; Maria Santíssima, Maria Madalena e São João gravaram no coração cada gesto e palavra. Três dias depois, porém, o Senhor ressuscitou, e a alegria dos apóstolos renasceu com a esperança de que Ele nunca mais partiria. “Fica conosco” (Lc 24, 29), pediram os discípulos no caminho de Emaús.

No entanto, o Senhor nos pede, de modos diferentes, que não o retenhamos. “Não me segures” (Jo 20, 17), disse a Maria Madalena, enquanto desaparecia da vista de Emaús. Por fim, ao subir aos céus, parece se afastar definitivamente.

Como entender essa separação desejada pelo próprio Jesus, logo no momento em que Ele já não estava preso ao tempo nem ao espaço? Ele podia aparecer em uma casa fechada, caminhar ao lado dos seus sem ser reconhecido, estar onde e quando quisesse. E, no entanto, escolhe partir. Essa escolha tão inesperada nos revela um mistério profundo: o Seu desejo de nos ensinar a amar de outro modo.

Talvez você também já tenha imaginado como seria emocionante ver e ouvir Jesus diretamente, sentir a Sua proximidade física. Quantas vezes, como acontecia com São Josemaria, nos vem ao pensamento: “Senhor, quero te dar um abraço!” [1]. Mas essa ausência física funciona como um ímã: atrai-nos para que não nos detenhamos aqui, mas nos aproximemos progressivamente do nosso destino e do encontro definitivo com Ele [2].

Os primeiros cristãos precisaram aprender algo inédito: como amar uma pessoa viva e relacionar-se com ela no presente sem a ter fisicamente por perto. A Ascensão inaugura esse novo modo de amar. Diante da Eucaristia, por exemplo, os nossos sentidos se confundem: “a vista, o tato, o gosto se enganam” [3], lembra São Tomás de Aquino. É uma forma muito peculiar de intimidade, que exige uma nova educação dos sentidos — um processo que não acontece da noite para o dia. “Ai, quem poderá me curar!”, suspirava São João da Cruz [4].

Aprender a se relacionar com um Deus que se revela e se esconde não é tarefa do nosso próprio engenho. Os apóstolos precisaram do Espírito Santo, aquele que torna presente o mistério de Cristo e reacende a nossa luz interior [5, 6].

O que os santos — casados ou não — nos ensinam

Todos nós — solteiros, casados, jovens, idosos, sacerdotes e leigos — precisamos aprender este jogo de nos deixar atrair por Deus. Nas pessoas celibatárias ou solteiras, a necessidade de amar pela fé parece mais evidente, pois a sua doação não conta com a presença física diária de um cônjuge. Mas, no matrimônio, também é Cristo quem preenche plenamente a sede de amor de cada esposo. Em ambos os caminhos, é o Espírito Santo quem opera essa transformação.

Penso na história de Eduardo Ortiz de Landázuri [7], médico supernumerário do Opus Dei, casado com Laura Busca. Ele contava que aprendeu de São Josemaria duas coisas fundamentais:

  1. Amar a todas as pessoas com os seus defeitos, vendo em cada uma um filho de Deus;
  2. Descobrir nas atividades diárias uma profundidade sobrenatural e divina [8].

Ambas exigem enxergar além da superfície. “As pessoas, geralmente, têm uma visão plana, de duas dimensões”, escreveu São Josemaria. “Quando a tua vida for sobrenatural, obterás de Deus a terceira dimensão: a altura. E, com ela, o relevo, o peso e o volume” [9]. Quando Eduardo enfrentava um câncer, um paciente ateu escreveu-lhe dizendo o quanto o seu testemunho o inspirava. Eduardo respondeu: “Como médico, estou convencido de que o Senhor acampa sempre junto ao doente […] Seus ouvidos ficam muito mais sensíveis e sua visão mais profunda” [10].

Os santos são os grandes mestres dos sinais discretos de Deus. São Josemaria aprendeu a reconhecer a presença divina nas pegadas de um carmelita na neve, no pedido ao seu anjo da guarda para acordá-lo de manhã ou ao encontrar uma rosa de madeira no meio das ruínas da guerra. Eles aprenderam a amar pelos sentidos espirituais e a despertar essa mesma sede em nós [11].

Um caminho que acolhe as nossas fraquezas

Quando Jesus sobe aos céus e envia o Seu Espírito, Ele sabe das nossas limitações para conhecê-lo e amá-lo. “Não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se de nossas fraquezas” (Hb 4, 15). Ele conhece o nosso desejo de comunhão ferido pelo pecado, que muitas vezes nos faz agir às cegas ou com falsas expectativas.

O Espírito Santo vem curar em cada um de nós esse desejo de dar e receber amor, reacendendo a nossa vida a partir das próprias fragilidades — como fez com Pedro após a sua negação. Deus deseja transformar o nosso coração para que possamos amar no mundo, no matrimônio ou no celibato, com a mesma medida do Seu próprio Amor.

Referências e Notas

  • [1] São Josemaria, Notas de uma reunião familiar, 02/11/1964.
  • [2] Papa Francisco, Audiência Geral, 17/04/2013.
  • [3] São Tomás de Aquino, Hino Adoro te devote.
  • [4] São João da Cruz, Cântico Espiritual, estrofe 6.
  • [5] Catecismo da Igreja Católica, n. 1099.
  • [6] Hino Veni Creator Spiritus.
  • [7] Eduardo Ortiz de Landázuri (1910-1985), médico espanhol em processo de beatificação.
  • [8] Cf. M. E. Landázuri, A amizade em Eduardo Ortiz de Landázuri.
  • [9] São Josemaria, Caminho, n. 279.
  • [10] Testemunho citado na biografia de Eduardo Ortiz de Landázuri.
  • [11] Cf. C. Fabro, La preghiera nel pensamento di San Josemaría.
  • [12] Catecismo da Igreja Católica, n. 2560.