A jornada de Santo Agostinho contada nas suas Confissões representa o itinerário espiritual de todo ser humano que procura preencher o vazio da existência em coisas finitas. O ser humano traz em si uma sede insaciável de beleza, de verdade e de bem; contudo, a tragédia da condição humana frequentemente reside em procurar essa água viva em fontes secas.
Agostinho passou anos procurando a felicidade nos prazeres efêmeros, no prestígio intelectual e na beleza das criaturas. O seu erro não esteve em amar as coisas belas criadas por Deus, mas em deter-se nelas sem erguer o olhar para o Criador. Ele estava “fora de si”, disperso pelas atrações do mundo, enquanto Deus o esperava no santuário mais íntimo da sua alma.
A célebre oração “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração permanece inquieto enquanto não repousar em Ti” revela a essência de toda busca vocacional. A inquietude que sentimos no peito — a insatisfação com a mediocridade, o desejo de algo mais profundo — não é um defeito a ser anestesiado, mas o próprio toque de Deus a atrair-nos para Si.
A conversão e o discernimento acontecem quando permitimos que a voz de Deus vença a nossa surdez espiritual. Quando descobrimos que Deus não é um rival da nossa liberdade, mas a sua única fonte verdadeira, cessam as fugas. A entrega da vida a Deus não empobrece o ser humano; antes, liberta-o de todos os falsos deuses e concede-lhe aquela paz profunda que o mundo não pode dar nem tirar.
Referências
- [1] Bíblia Sagrada: Salmo 42 (41), v. 2-3 (“A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo”).
- [2] Bíblia Sagrada: Evangelho segundo São João, cap. 4, v. 13-14 (O diálogo com a Samaritana sobre a Água Viva).
- [3] Santo Agostinho: Confissões, Livro I, Cap. 1, n. 1 (“Fizeste-nos para Ti, Senhor…”).
- [4] Santo Agostinho: Confissões, Livro X, Cap. 27, n. 38 (“Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova…”).
- [5] Catecismo da Igreja Católica (CIC): n. 27-30 (O desejo de Deus inscrito no coração do homem).