Sobre a carta pastoral de Mons. Fernando Ocáriz acerca da contemplação
Há um modo de olhar que não se aprende com os olhos. É o olhar de quem ama: demora-se, não tem pressa de concluir, deixa-se tocar por aquilo que vê. A tradição cristã chama esse olhar de contemplação.
É sobre ele a carta pastoral que Mons. Fernando Ocáriz, prelado do Opus Dei, assinou em Roma no dia 16 de outubro de 2026. Escrita como preparação para o centenário da Obra, ela toca num chamado que pertence a todo batizado: ser contemplativo no meio do mundo, encontrar Deus não fora da vida, mas no coração dela.
O olhar que nasce do amor
Para dizer o que é contemplar, a carta recorre a São Tomás de Aquino: contemplação é simplex intuitus veritatis ex caritate procedens, “um olhar simples e intuitivo para a verdade que procede do amor” (Suma Teológica II-II, q. 180, a. 3). Não se trata de especulação abstrata, nem de um exercício solitário da inteligência. Quando o coração está cheio do amor de Deus, inteligência e afeto se reúnem num único e simples ato de visão.
Bento XVI deu a esse olhar um nome que não se esquece: o programa do cristão é “um coração que vê” (Deus Caritas Est, 31), um coração que enxerga onde falta amor e age em consequência. Há nisso uma lei secreta da vida espiritual: a pessoa olha para aquilo que ama, e esse olhar, pouco a pouco, transforma quem contempla.
Por isso a oração cristã tem a forma de uma busca. Quem ama não se contenta em saber coisas sobre o amado; deseja ver seu rosto, ouvir sua voz, permanecer em sua presença. Ecoa aqui o gemido filial do Salmista: Vultum tuum, Domine, requiram, “buscarei, Senhor, o teu rosto” (Sl 27[26],8). E esse rosto, que Israel procurava através dos séculos, deixou-se ver em Cristo: quem vê o Filho vê o Pai (cf. Jo 14,9).
O Filho em diálogo com o Pai
A fonte de toda contemplação cristã é a oração de Jesus. Os Evangelhos o mostram rezando no Jordão (cf. Lc 3,21), retirando-se de madrugada para lugares desertos (cf. Mc 1,35), passando a noite no monte (cf. Lc 6,12), entregando-se ao Pai na agonia do Getsêmani (cf. Mt 26,36-44) e, por fim, na cruz (cf. Lc 23,34.46).
Mas esses momentos, lembra a carta, são apenas a superfície visível de algo mais profundo. A vida inteira de Jesus é um diálogo ininterrupto com o Pai, feito também de trabalho e de descanso, de gestos e de olhares. Bento XVI descreveu essa oração como um canal escondido que irriga toda a existência do Senhor e o conduz, com firmeza crescente, ao dom total de si (Audiência geral, 30/11/2011).
Daí a luz que se derrama sobre os trinta anos de Nazaré. Ali, na oficina e na casa, sem milagres nem multidões, o Verbo feito carne viveu a vida comum. Com isso revelou que a existência de cada dia tem um sentido divino (cf. São Josemaria, É Cristo que passa, 14). Os Padres da Igreja ensinavam que o que não foi assumido não foi redimido; pois bem, o Filho assumiu também o cotidiano, o pão repartido, o cansaço do trabalho, o silêncio dos dias iguais. Nada disso ficou fora do alcance de Deus.
Contemplativos itinerantes
O decreto sobre as virtudes heroicas de São Josemaria (1990) o definiu como um “contemplativo itinerante”. A expressão guarda um paradoxo: a contemplação, que costumamos imaginar imóvel, posta a caminho; o claustro levado para dentro das ruas.
Ele mesmo deixou o testemunho de como Deus o visitava nos lugares mais comuns. A oração lhe vinha enquanto lia o jornal. E a oração que considerou a mais alta de sua vida aconteceu num bonde e, depois, caminhando pelas ruas de Madri, diante de uma verdade simples e abissal: Deus é meu Pai. Foi em 16 de outubro de 1931, exatamente noventa e cinco anos antes da carta. Muitos anos mais tarde, numa rua de Londres atravessada por gente de todo o mundo, sentiu-se incapaz diante da grandeza da tarefa e ouviu no fundo do coração: “tu não podes nada, mas Eu posso tudo”.
Pedia ao Senhor que suas distrações fossem “distrações ao contrário” (Forja, 1014): em vez de se lembrar do mundo ao tratar com Deus, lembrar-se de Deus ao tratar das coisas do mundo. Buscava descobrir poesia, “decassílabos” (Entrevistas, 116), nas ações que pareciam banais. É o que o Evangelho de João chama de permanecer: viver em Cristo como o ramo vive na videira (cf. Jo 15,4-5).
Num mundo acelerado
A carta não ignora o tempo em que vivemos. Reconhece uma sociedade inclinada ao ativismo, em que a vida parece medida pela produtividade e pelo acúmulo de bens, experiências e prestígio. Reconhece também que as tecnologias, quando não usadas com sabedoria, podem isolar e dificultar a escuta de Deus e dos outros. Fala-se, diz o texto, de uma verdadeira crise do recolhimento e da atenção.
O Papa Leão XIV, na encíclica Magnifica humanitas (2026), sobre a pessoa humana na era da inteligência artificial, pede “uma verdadeira higiene da atenção” (n. 146): ritmos que deem lugar ao silêncio, ao estudo, à leitura e ao debate ponderado. Sem eles, adverte, a liberdade interior fica comprometida. E com ela, acrescenta a carta, a própria capacidade de rezar.
E, no entanto, sob o ruído, há uma sede. Multiplicam-se as ofertas de “espiritualidade”, muitas delas parciais, incapazes de saciar o que o coração pede. A esse desejo que pulsa no fundo de toda pessoa, mesmo das que parecem mais distantes, responde o convite de São Josemaria a sermos almas de oração, numa conversa com Deus que dure “da manhã até a noite e da noite até a manhã” (Amigos de Deus, 247).
O céu com os pés na terra
Há sempre o risco de confundir vida espiritual com fuga: um refúgio sentimental longe dos deveres, um devaneio de olhos nas nuvens. A contemplação cristã tem outra raiz, a Encarnação. Deus não nos pede que deixemos o mundo para encontrá-lo, mas que levantemos os olhos para o céu precisamente através do que temos nas mãos. “Ou sabemos encontrar o Senhor em nossa vida de todos os dias, ou não O encontraremos nunca” (São Josemaria, Entrevistas, 114).
Quando essa busca amadurece, a oração se simplifica. As palavras se tornam pobres, a inteligência se aquieta, e resta apenas o olhar: “Não se raciocina, fita-se!” (Amigos de Deus, 296 e 307). A alma descobre que não é só ela quem olha; sabe-se olhada amorosamente por Deus em todos os momentos. Nasce então um paradoxo alegre: estar ao mesmo tempo no céu e na terra. Santo Agostinho o disse com uma clareza que atravessa os séculos: “Se amas a Deus, estás no céu, mesmo habitando na terra” (Sermão sobre o Salmo 85, 6).
Por isso o tempo ganha outro peso. Tempus breve est, o tempo é breve (1Cor 7,29), escreve São Paulo. Não como ameaça, mas como urgência de amar. Cada hora de trabalho, cada gesto de afeto, cada atenção ao outro torna-se moeda de eternidade, e a vida passa a ser vivida, como pedia São Josemaria, “com vibração de eternidade” (Amigos de Deus, 239).
Dom e pureza de coração
A contemplação não é fruto de técnicas nem de métodos psicológicos de concentração. É, antes de tudo, dom gratuito do Espírito Santo aos corações humildes. Santa Teresa de Jesus o resumiu sem rodeios: “Isso é algo que Deus dá” (Caminho de Perfeição, 17,2). Diante desse dom, a atitude da criatura é a súplica, como a do cego à beira do caminho, que São Josemaria fazia sua: “Senhor, que eu veja!” (Amigos de Deus, 127).
Mas o dom não dispensa a resposta. A graça não anula a natureza; supõe-na e a aperfeiçoa. Por isso a carta fala de uma luta serena e constante, que começa pela fidelidade a um tempo diário de oração pessoal. O Catecismo lembra que não se pode rezar “sempre” se não se reza em certos momentos, escolhidos por decisão própria: são os tempos fortes da oração cristã (CIC 2697). E lembra São Josemaria que “os anos não trazem sabedoria nem santidade” (Em diálogo com o Senhor, 48): elas nascem da correspondência humilde à graça, dia após dia, num recomeçar que não se cansa.
Há ainda uma condição que o próprio Senhor proclamou: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8). A pureza de coração inclui a castidade, mas é mais ampla: é a liberdade interior diante de todo apego desordenado ao amor-próprio, à riqueza, ao sucesso, às próprias opiniões. Quem está cheio de si tem o olhar embaçado. Só um coração desimpedido é transparente o bastante para que Deus apareça nele.
Ver a Deus nos outros
A contemplação verdadeira não fecha o cristão num intimismo individualista. Ao contrário: quem aprende a ver Deus na oração aprende a reconhecer sua imagem nas pessoas ao redor. Não há um coração para amar a Deus e outro para amar as criaturas; amamos com o mesmo coração. E é no irmão que o Senhor nos espera (cf. Mt 25,40).
Por isso a carta afirma que a contemplação se prova na qualidade da caridade: na delicadeza, no respeito pela liberdade do outro, no serviço alegre, na capacidade de escutar. Cada pessoa vale todo o sangue de Cristo. Quem se sabe perdoado por Deus já não consegue guardar rancor, e entende por dentro a confidência de São Josemaria: “Não precisei aprender a perdoar, porque o Senhor me ensinou a amar” (Sulco, 804).
Desse olhar nasce, como um fogo que transborda, o desejo de anunciar. A alma contemplativa olha o mundo com olhos de esperança e de compaixão, nunca de lamento. Por isso a carta conclui que não “exercemos” a contemplação como uma atividade entre outras: somos contemplativos. Oração, trabalho, fraternidade e missão são dimensões de uma única vida.
Toda vocação nasce de um olhar
Quando o jovem rico se aproximou de Jesus perguntando pelo caminho da vida, o Evangelho registra um detalhe antes de qualquer palavra: Jesus fixou nele o olhar e o amou (cf. Mc 10,21). Antes de ser uma decisão a tomar ou um caminho a escolher, a vocação é isto: um olhar recebido. Alguém nos viu primeiro, e nos viu com amor.
Por isso discernir não é apenas pesar possibilidades. É deixar-se olhar por Deus e aprender, aos poucos, a olhar a própria vida com os olhos dele. O Senhor raramente fala no estrondo. Com o profeta Elias, não estava no vento impetuoso, nem no terremoto, nem no fogo, mas no murmúrio de uma brisa suave (cf. 1Rs 19,11-13). Um coração disperso dificilmente percebe essa voz; um coração que vê começa a reconhecê-la nas coisas mais simples.
E é no meio da vida que ela se faz ouvir: no estudo e no trabalho, na família, nas amizades, no serviço à comunidade. Seja no sacerdócio, na vida consagrada, no matrimônio ou na vida leiga, toda vocação é uma forma de responder ao olhar de Cristo com o próprio olhar, e de deixar que esse olhar se estenda, por meio de nós, sobre o mundo.
Com os olhos de Maria
A carta termina voltando-se para Nossa Senhora, mestra da contemplação na vida de todos os dias. Na casa de Nazaré, entre as tarefas mais simples, ela guardava todas as coisas e as meditava no coração (cf. Lc 2,19). São João Paulo II escreveu que Maria “vive com os olhos fixos em Cristo” (Rosarium Virginis Mariae, 11), e que as lembranças do Filho, gravadas na sua alma, formaram de certo modo o rosário que ela rezou durante toda a vida.
Não precisou sair do mundo para viver diante de Deus. Fez da cozinha, do caminho e da espera um lugar de contemplação. A ela se pode pedir a graça que a carta deseja para todos: os olhos da mente e do coração fixos em Jesus, os pés firmes na terra e o coração, já agora, no céu.
Fonte: Mons. Fernando Ocáriz, Carta pastoral sobre a contemplação, Roma, 16 de outubro de 2026 (opusdei.org).